NOITES DE INSÔNIA

Quarta-feira, Novembro 05, 2008


You know, I used to live alone before I knew you

Dói, mas a dor é bem-vinda. A má é a latente. O dano causado foi tão acima do suportável que os sentidos nem se preocupam em notificar que coisas que me eram vitais foram destruídas. O sentimento que tenho é de felicidade pela queda do paradigma antigo para algo novo no porvir. Foi um simples princípio, este transformador: a aceleração, isto é, a variação de velocidade tão grande que a minha estrutura se desfez, como se tivesse sido arrastado por um asteróide no espaço. Somos seres fracos e indefesos contra o momento linear. Não há chance de vitória, é como lutar contra um urso.

E eu entrei na caverna, ou melhor, fui atingido, pois já havia muito tempo que a beleza do mundo me fascinava. Mantinha-me desatento para o que me circundava e que era real, em busca do inexistencial. Porém esta beleza não está em todo o lugar, mas sim em um lugar muito próprio. Pois, na verdade, ela é apenas a comunhão entre os meus sentidos e o meu estado, mas ainda assim eu a amava. E ainda amo, como este momento de dor, único na minha vida.

Porque passava por esta fase é algo que só agora tenho chance de compreender. Mesmo jovem buscava por algo que me completasse e que é dado para acontecer na metade da vida. Percebo neste momento que eu estava atrasado, pois já me encontrava muito próximo ao fim da vida, que se dará em instantes. Esta metanóia deveria ter sido um sinal. Imagino aqueles que morrem ainda mais jovens, será que todos eles passam pela meia idade?

Eu encontrei o amor e, com ele presente, pude enxergar a beleza do mundo. Este encontro não foi por alguém, pois esta pessoa eu já conhecia. Minha descoberta foi deixar de mutilar o meu sentimento para engrandecê-lo, mesmo com a impossibilidade de concretizar esta união. Se nos juntássemos, os sonhos que teríamos que abrir mão para isto fariam com que o nosso amor acabasse com o tempo, mas distantes podemos gozar da felicidade de termos alguém para a vida toda.

A beleza está dentro de nós. Nos detalhes que, mesmo sem serem nada de especiais, fazem todo o sentido e nos entorpecem como uma droga absorvida no café da manhã. Na padaria perto de casa vendem-se pães, leite e confeitos. São tão belos os sonhos nevados de açúcar que me sinto incapaz de não comprá-los. Amo os sonhos, amo a vida que está acabando. A dor é boa e me sinto tão extático que já não consigo pensar. Na padaria têm sonhos de creme e de doce-de-leite. Mesmo a amando à distância gostaria de tocar seu cabelo mais uma vez e comê-lo num sonho. Estou sonhando agora, será que estarei dormindo? Estou feliz por estar aqui comigo, sinto gosto de doce-de-leite. A padaria é bem iluminada de creme e neva açúcar. Na rua dia de folhas em céu de árvores senda linha. Olhos carrodia de-leite-doce sangüe nelve jesta ojionuoboraloresssssssssssss...

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Quinta-feira, Outubro 16, 2008


Sem título

O impulso que inicia um texto é semelhante a um movimento involuntário. Batimento do coração, peristaltismo. Como o destino de uma moeda lançada em rotação transladada que se liga ao dedo que deu origem ao movimento, a prensa que criou sua conformação espacial. É irracional e caótico.

O pensamento parece não ter dono. O escritor é apenas o meio por onde ele propaga-se e nem se atreve a chamar de eu. Há os que assinam os textos como se pertencessem a estes 'eus', que exigem o traspassamento desta autoria, sem admitirem terem emprestado pensamentos soltos. Nada é produzido sem matéria prima, portanto a máquina que processa não cria, apenas transforma. Isto que um texto é.

A leitura alimenta e é acumulada em gordura para o inverno, mas têm vezes que o consumo é tão grande, não por quantidade e sim por ativar reações em cadeia, que precisa ser regurgitado, saindo quase do mesmo jeito que entrou. Às vezes, é necessário escrever.

E escreve-se, mesmo sem sentido. Não se busca o que está atrás do pensamento ou o auto-conhecimento. É um acidente de feição tão incerta quanto a face de um dado lançado a sorte. Mas é algo que está presente e grita. Não porque alguém teve o desejo de gritar, apenas porque é. Embora desapareça quase no mesmo instante que surgiu.



Quinta-feira, Outubro 09, 2008


Ok

Mas o que seria all in neste caso? Seria dizer: olá, um dia você sentou-se de frente comigo no ru, embora houvesse diversos lugares vagos e ficamos calados... pensei que não me recordaria do seu rosto, mas um dia cruzamo-nos na calçada e te reconheci... agora estamos lado a lado, sozinhos, como de costume, e eu não estou disposto a perder a chance de um novo romance.

Talvez no cinema fosse assim, mas na vida real... vou tentar. Esperando amigos, aula de manhã, foi um pouco esquiva. Talvez não seja o que eu estou pensando, talvez se eu tentasse a outra abordagem... realmente poderia haver um romance. Ela tem um brilho nos olhos... deve ser lente de contato. Vou esperar ela dizer alguma coisa.

Já faz quase um mês e esta parece ser minha maior chance. Mas no momento lá se vai ela pedalando. Com certeza que meu viu, por que não dá a volta no quarteirão e vem falar comigo? Porque a vida não é assim... é mais como uma sucessão de acontecimentos rotineiros, de pessoas desistindo no pot.

Mas a rotina não é ruim e hoje gozo da tranqüilidade que desejei em outra época. Tenho tempo de sobra para mim. Só que pensar demais na vida é perigoso. Gostei daquela metáfora: ao olhar dentro da caixa não se meta lá dentro, pois pode haver um escorpião no fundo. Isto é o que a gente é, mas é mais saudável nos conhecer apenas como conhecemos os outros, pelos comportamentos... além de ser melhor para o ego. Quem indaga a si próprio sobre seus feitos, não vive aventuras.

Então o segredo é parar de pensar em mim... além de ganhar um tempo você não se entristece. Pense nos outros, nas coisas. E você apenas vive e se orgulha quando faz alguma coisa e conta para os outros para ter o reconhecimento e acredita que se os outros te elogiam é porque você merece... não se ponha em dúvida. Quem sabe assim você pode viver um novo romance.

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Quinta-feira, Setembro 18, 2008


O alvo

Em 30 de novembro de 1998 meu irmão ganha de presente de aniversário o livro O Mundo de Sofia. Eu termino de lê-lo em 14 de junho de 1999.

Eu empresto da biblioteca da ETE Polivalente de Americana o livro Diálogos de Platão em 21 de abril de 2001 e termino o curso de Técnico em Informática em 6 de dezembro de 2002.

No dia 20 de setembro de 2003 eu pronuncio que estou tomando a decisão mais importante da minha vida. Começo a ler a Metafísica de Aristóteles em 3 de janeiro de 2005.

Em 7 de novembro de 2005 eu sou presenteado com o livro Além do Bem e do Mal e no primeiro dia de 2006 eu compro em uma banca/sebo o livro Discurso do Método.

No dia 18 de janeiro de 2008 eu termino o curso de Ciência e Tecnologia: Aspectos Filosóficos, Éticos e Políticos e em 7 de fevereiro do mesmo ano encontro na biblioteca da Unesp Rio Claro o livro A Náusea.

Inscrevo-me no POSCOMP em 3 de junho de 2008 e com o trabalho Rede de Sensores Sem Fio para Sistema de Monitoramento em Águas Subterrâneas eu recebo o título de bacharel em Ciências da Computação no dia 12 do mesmo mês e ano.

Em 15 de setembro de 2008 eu encontro na Internet o artigo A Epistemologia da Ciência da Computação e no dia 18 do mesmo mês e ano eu faço a reserva do livro Computabilidade, Funções Computáveis, Lógica e os Fundamentos da Matemática.

Não sei se esses fatos me tornaram o que eu sou ou se fui eu que motivei por minha personalidade cada um deles. Mas neles identifico um fio condutor que diz algo a respeito de mim.

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Quarta-feira, Setembro 10, 2008


Feliz dia da lagosta

In a little while
Surely you'll be mine
In a little while... I'll be there
In a little while
This hurt will hurt no more
I'll be home, love

A menina sentada ao chão observava a estante repleta de livros. Na parte de baixo eram grandes e grossos e lá em cima ficavam os do tamanho dela. Tinha o cabelo castanho e liso da mãe e os olhinhos do pai.

O pai estava trabalhando agora, mas ela sabia que no final da tarde ia voltar para ficarem juntos. Ele sentava-se com a mãe no sofá, e a menina contava-lhe todas as novidades e depois iam brincar com o panda.

A mãe estava fazendo o almoço e disse que ia ter pêssego em calda na sobremesa. Fez de manhã uma caixinha de madeira enfeitada de conchas para a menina. Ela guardou lá os seus brincos, anéis e pulseiras.

Ela estava ansiosa pela vinda do irmão, ou da irmã. Disse que ia cuidar dele para a mãe quando estivesse trabalhando. Mas hoje ela não foi trabalhar, pode ficar em casa aproveitando sua mediocridade feliz.

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Sábado, Agosto 23, 2008


Somos todos escritores, só que alguns escrevem e outros não

Fui buscar meu certificado de bacharel, posso sair por aí bacharelando agora. O rito de passagem foi assim: um dia era aluno, noutro não era mais e me entregaram um papel. O título não me fez uma pessoa melhor e espero que nem pior, tornou-me apenas um cara com um papel. Ele me serviu para espantar uma mosca agora há pouco.

Daí tem outro papel e outro e mais outro e se você for narcisista o suficiente ainda outro. Você fará parte de um seleto grupo de pessoas que tem um monte de papel. Uma pessoa respeitável, que ganhou um novo primeiro nome. Seu currículo lattes é impossível de ler de tão extenso. Você é quase um super-herói.

Eu acreditava que minha bacharelisse me daria algo parecido com um super-poder, mas eu ainda me sinto demasiado humano. Não humanista, eu não gosto muito de gente, mas humano, em toda sua complexidade. Acima do que sou investido, eu sou eu e disso não dá para fugir. Idade, cargo, título não mudam uma pessoa e a vida não é feita de fases.

Se eu pudesse, eu pegava meu bacharelismo e enfiava na gaveta, pois o que eu quero mesmo é ser escritor. Embora eu seja um escritor, desses que não escrevem. Assim como somos todos bacharéis, só que alguns não têm o papel. A mosca continua a me atazanar, nem para isso me serviu.

Publicado pelo bacharel à 01:37 | Não clique aqui ()


Terça-feira, Agosto 05, 2008


Viagem ao centro

Ao atingir o vidro, a gota d'água criou um rastro comprido e fino. Apenas neste momento, dentro do ônibus, ele percebeu que ia começar a chover. Ia tão distraído que não havia percebido os outros sinais. Observava o interior do ônibus, as barras de ferro amarelas, as espumas envolvidas por tecidos grossos, o teto de plástico branco e, por fim, o vidro transparente que o fez perceber o que se passava do lado de fora, a idéia da chuva. Dentro, tudo era de uma substância material que impunha com tamanha força sua presença, que era incapaz de pensar em algo que não estivesse ali fisicamente.

O aparelho da academia é feito também de ferro, espuma e plástico. Estava sentado sobre ele, diante de um espelho, olhando nos olhos do seu reflexo, mas a estranheza dessa recursividade nem lhe passou pela cabeça. Seu pensamento se resumia a controlar seu corpo, para realizar os movimentos cadenciados, em harmonia com a respiração. Era justamente para se tornar um ser mais físico que se encontrava ali. Enquanto repousava sobre a matéria fria, perscrutava as demais pessoas entre as paredes de concreto duro. Elas eram corpos em movimento, constituídos de músculos, ossos e vísceras cobertos por pele.

No refeitório ele repunha a matéria consumida na atividade física. O ato de movimentar os utensílios e carregar a comida da bandeja à boca não requeria nenhum esforço mental. Seu pensamento voava enquanto comia sozinho num ambiente tão familiar que nada lhe chamava a atenção. Os objetos dali eram formas abstratas que em sua totalidade constituíam o restaurante. Seu corpo servia para captar sensações do ambiente que na sua mente resgatava lembranças e produzia pensamentos. Era apenas um meio para o seu ser.

Observando o firmamento, indagou se é possível contar as nuvens. Talvez não seja, mas também é improvável que sejam ilusões aqueles imensos corpos de água condensada que formam uma imagem branca e difusa. Assim como ele próprio, um ser pensante contituído de um aglomerado de moléculas orgânicas estruturadas. Continua olhando para o céu, com a intuição de que é eternamente incapaz de saber algo além.

Publicado por Milton à 18:59 | Não clique aqui ()


Domingo, Julho 06, 2008


Com mérito

Vale a pena fazer algo pelo dever? Realizei na minha vida mais coisas por outras pessoas do que por mim mesmo. Nem sei para quem estou fazendo, ou então se há alguém que será realmente afetado pelo meu esforço. Como uma máquina que funciona porque foi feita para funcionar, sou uma engrenagem girando sem motivo.

E mesmo as coisas que escolhi fazer não são do jeito que pensei que seriam. Chega um momento em que desejo abandonar tudo, mesmo não tendo nada que a substitua. Apenas quero esquecer o que eu fui. Mas enquanto não há meios de terminar, mesmo que me destrua por dentro, há o dever de seguir em frente.

Se a vida tivesse me dado mais recursos não existiriam tantas dúvidas. Toda essa indecisão é fruto de ter tido de fazer escolhas prematuramente. Hoje sou um homem comoportunidades que não me interessam e é tarde demais para voltar no tempo e corrigir minha decisão. Só há um caminho, evolutivo, progressivo e não há chance de fazer o retorno para ver se perdi uma entrada.

Essa miséria nos torna pessoas miseráveis. Seres medíocres que só fazem aquilo que se espera que façam. Que cantam em coro com a multidão. Que se vendem por dinheiro e se anulam com seu trabalho. Onde estão os grandes feitos? Qual é a glória de ser um estudante, um familiar, ou um trabalhador, exemplar? Não há nenhuma, é apenas uma prisão.

Preciso da força para dizer não ao dever. Para me libertar destas grades que me mantém num cubículo podre e fétido. Eu não sou uma pessoa ambiciosa, mas também não sou alguém que espera chegar ao fim da vida para perceber que a desperdiçou com mesquinharias. Quero fazer algo por mim e mesmo que me vaiem, eu me aplaudirei.

Publicado por Milton à 23:20 | Não clique aqui ()


Segunda-feira, Junho 30, 2008


Um brinde ao jubileu de madeira, são cinco anos pra comemorar

Mais um ano de blog se passou. No dia 21 de junho se completaram cinco anos desde a primeira vez que eu parei o que tinha para fazer, nem que algumas vezes fosse simplesmente olhar para o teto ou dormir, para escrever alguma coisa aqui. Embora cinco anos seja considerado um acontecimento mais importante que três ou quatro, eu não preparei nada de especial este ano. Aliás, se não publicasse hoje, ficaria pela segunda vez, desde que o blog fora criado, sem publicar por um mês.

Se existe alguém ainda que me ouve, peço perdão pela pouca verborragia. Sei que, às vezes, ao abrir este blog, há um sentimento de algo que nunca cresce, que não tem sentido, que vai de nenhum lugar a lugar nenhum e com razão. Eu mesmo sinto isso ao ver o mesmo fundo cinza 80% com as palavras repetidas. Mas acho que o objetivo nunca foi a novidade e sim a mesmice, para mostrar uma, duas, dez, cem, mil vezes quem eu sou, no branco no preto.

Agradeço, como sempre, aos leitores deste blog. Não vou dizer que sem vocês ele não existiria para evitar o lugar comum, mas que com vocês ele se torna uma experiência compartilhada, afinal se fosse escrever para mim mesmo era só abrir um caderno e rabiscar umas palavras. E acima de tudo, agradecer a Baby Jesus por todas as benfeitorias que tive graças este ano. Por fim deixo um trecho da minha última publicação externa a este blog.

Uma rede de sensores sem-fio é caracterizada por ter uma baixa taxa e uma alta latência na transmissão de dados. Os nós geralmente possuem uma baixa capacidade de processamento e armazenamento. Todos esses fatores, além dos supracitados, precisam ser levados em consideração para o desenvolvimento de protocolos dessas redes. Por outro lado, a cooperação entre os nós, o broadcast natural das comunicações sem-fio, são pontos-fortes que podem ser explorados. Para tanto, novas técnicas de modelagem da pilha de protocolos têm sido desenvolvidas, baseadas na proposta cross-layer. Segundo ela, algumas violações do modelo de referência em camadas são utilizadas com o intuito de aumentar a eficiência dos algoritmos, reduzir o tamanho do código e diminuir a sobrecarga de dados de controle. Criação de novas interfaces entre camadas, junção de camadas adjacentes, compartilhamentos de dados entre camadas são exemplos das violações utilizadas em protocolos cross-layer.

Publicado por Milton à 00:01 | Não clique aqui ()


Quarta-feira, Maio 28, 2008


Um pedaço de merda

Um desvio de septo nasal, um globo ocular alongado, um disco intervertebral achatado, uma inaptidão social, um pé chato, uma hérnia de hiato, uma cabeça pequena para um pescoço alongado, um corpo desengonçado, um siso torto, um dedo torto, um rosto feio, uma obsessão pelo passado, uma mancha saltada, uma cicatriz roxa, um pêlo em local inapropriado, um nunca aconteceu antes comigo, uma cabeça baixa, um egocentrismo, uma mão fechada, uma córnea de formato irregular, um medo de falhar, uma timidez disfarçada, um prepúcio, uma hérnia encarcerada, um porte físico fraco, um medo de perder, uma voz nasalada, uma pele cicatrizada de acne, uma amígdala avantajada, uma incerteza, uma angústia, uma tristeza.

Baby Jesus ainda me paga
Um dia ainda me explica
Como é que pôs no mundo
Essa pobre titica.

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Terça-feira, Maio 13, 2008


O elixir da vida e da lucidez

- Eu não estou louco, mas isto é um paradoxo?

- O que você quer dizer?

- Um homem que está louco, não admite estar. Logo, se eu disser que estou louco, não estarei. Todavia, se disser que não estou louco, assim, posso estar.

- Quer dizer que você está em dúvida se está louco?

- Não. Eu certamente não estou louco. Apenas dizendo isto, posso estar.

- Por que você diz estar louco e não ser louco?

- Porque a loucura só pode ser um estado, ou os loucos o são na essência? Se há uma transição da lucidez à loucura, com certeza haverá uma no sentido oposto. O efeito inverso do que tornou a pessoa louca poderá torná-la lúcida.

- Então você quer dizer que se algo torna uma pessoa que está viva, morta, o efeito oposto irá tornar uma pessoa morta, viva?

- Exatamente. Ora, você não vê pessoas nascerem o tempo todo. Em que estado você acha que elas estavam antes de estarem vivas? A morte é apenas um estado, assim como a vida.

- Você é mesmo um louco.

Publicado por Milton à 23:06 | Não clique aqui ()


Segunda-feira, Abril 14, 2008


Você já não quer mais amar / Sem rumo tá sem direção

Seu olhar se cruzou com o dela enquanto ele marcava o ritmo com a mão esquerda e com a direita batia na pele do instrumento apoiado sobre a perna que ainda tremia. Ela fingiu seu sentimento durante a tarde toda, mas apenas aquele olhar foi suficiente para entregá-la.

Com um movimento rápido da mão direita, fazia chocalhar a cada batida o instrumento que carregava com a mão esquerda, mas o olhar que cruzou desta vez não tinha significado algum, era quase totalmente vazio. Ele não conseguia apenas ignorar a diferença dos olhares e de todo o resto.

Fazendo as cordas vibrarem na freqüência desejada, pressionando-as com as pontas dos dedos relembrava uma música do passado. O passado que não existe mais. Através de fotos, ele cruzou com um olhar cheio de vida que não sabia se já havia se apagado.

Magoado, vazio, desconhecido. São esses os olhares que conhece no presente. Não há mais nenhum pretexto, nenhum sonho, nenhuma lembrança, as quais sempre fez questão de destruir. Será que realmente não significou nada? Os pretextos sempre o ajudaram a viver a liberdade da prisão. Como será viver condenado ao livre arbítrio?

Estende a roupa, faz o almoço, lava as louças, existe. Não procura mais nos olhos. Encontra no corpo todos os significados que precisa para sua nova vida. Não quer mais ser nojento, não quer mais ser bizarro. Quer um corpo perfeito, quer uma alma perfeita, mesmo sabendo que não pertence a esse mundo.

Publicado por Betty à 23:52 | Não clique aqui ()


Domingo, Março 16, 2008


Roteiro

- .... Você é igual a todos.

- Sou sim. Faço questão de ser. Se um dia houve uma diferenciação, se escrevia cartas, se dizia palavras bonitas, se aceitava esperar, não há mais. Hoje quero o que é fácil, o que é prático, o que dá prazer imediato. Faço academia, estou sempre bêbado, não mostro quem eu sou, mas quem eu preciso ser, proque assim as pessoas gostam mais fácil de mim. Cansei de ser abandonado porque não era igual a todo mundo.

- Viu! Eu sabia que você tinha mudado. Sabia que não valia a pena investir em você. Sabia que você ia se converter a essa hipocrisia, a qual todos aqui dizem amém. Eu esperava mais de você, ....

- Você é tão hipócrita quanto a todos aqui, darling. Se eu mudei foi por sua causa e agora você vem me falar sobre investimento. Eu gostava de você e não diga que não sabia, mas eu não era do tipo que chegava te agarrando. E você preferia ficar com qualquer outro, que te arrastasse para o quarto, do que se esforçar para entender o que eu sentia.

- Quanto você quis ficar comigo? Todas as vezes que estávamos juntos você ficava falando de outras garotas ou da sua namorada. O que você esperava de mim enquanto você estava namorando? E eu não fico com qualquer um, como você fica com qualquer uma agora. Ficava com quem eu tinha alguma esperança, embora quase sempre estivesse enganada, assim como eu me enganei sobre você.

- Eu falo sobre outras garotas com você porque para mim você é só minha amiga. Se um dia eu confundi esse sentimento foi por puro descuido, porque você nunca demonstrou nada diferente. Eu só não entendo, se a gente não é nada além de amigos, por que você continua a insistir a brigar comigo quando eu fico com outra.

Publicado por Milton à 18:15 | Não clique aqui ()


Quinta-feira, Fevereiro 28, 2008


Apenas mais uma de amor

O caso de sucesso é simples: se unem por acaso, geralmente através de algo em comum; começam a se conhecer, conversar sobre coisas pessoais, além das frivolidades; se tornam mais íntimos, fazem coisas juntos, vão a lugares em comum; se beijam, conhecem uma nova faceta ao dar e receber carícias; saem como um casal, vão sozinhos a toda parte; um dia, como outro qualquer, descobrem que chegou a hora de se amarem; acordam sorrindo no dia seguinte.

Entretanto o caso de sucesso não é o único, nem sequer o mais praticado, como por exemplo: estão bêbados em uma festa; se beijam com a língua amortecida sem sentir o tato ou o paladar; entram em um buraco para se amarem, entretanto o excesso de álcool faz com que tudo seja forçado, inclusive o prazer; no dia seguinte não sabem como agir, mas prometem manter contato.

Ou então: se conhecem através de um amigo que está apaixonado pela outra pessoa; por não querer trair a amizade se afastam, embora comecem a se consumir de desejo; se encontram por acaso e contam seu segredo; se beijam, mas nenhum tem coragem suficiente para contar a verdade; começam a se encontrar escondidos e um dia, como outro qualquer, descobrem que chegou a hora de se amarem; se sentem culpados no dia seguinte.

E também: se conhecem há muito tempo e são bons amigos; um dia decidem que deveriam ficar juntos e se beijam; pouco tempo depois, porque já são íntimos, se amam; como parece ser a solução de todos os problemas continuam saciando sua libido; todos os dias seguintes sentem que não são apaixonados, mas desistem de qualquer atitude que tire seu conforto.

E por aí vai.

Publicado por Betty, que ignorou as regras de colocação pronominal, à 00:50 | Não clique aqui ()


Sábado, Fevereiro 23, 2008


Acidente textual

A abóbada celeste amanheceu com uma capa branca como em Dublin. Penso no clichê: "quando achamos que encontramos todas as respostas vem a vida e muda todas as perguntas...", mais um atribuído a Luis Fernando Veríssimo, mas que não se encontra em nenhum de seus textos. Não significa nada, serve apenas para blogs de pessoas que acham que sabem alguma coisa da vida, como este.

Sobre a mesa, a caneca, desta vez, contem água. E depois de tomá-la, há apenas a massa atmosférica que se confunde com a moleza da própria caneca e parecem fundir-se. Continuando no espaço, mesmo sem tocá-la, meu corpo a atinge e se tornam uma amálgama. Inclusive a água que uma vez pertenceu a caneca, está agora dentro desta trouxa de carne e o instante em que a água esteve no copo não existe mais.

Assim como o instante em que escrevi que a caneca continha água não mais existe, e o instante em que escrevi a oração anterior, a palavra anterior e também a letra anterior. É como se tivesse vindo sentar a frente de um texto começado, ele já não me pertence mais a partir do momento em que um ato inconsciente transformou meu pensamento na ação de escrever. Meu texto sempre está atrasado e portanto nunca se torna um ente existente nem mesmo no momento em que é lido, pois o ato inconsciente de interpretar o texto para torná-lo em seguida algo existente, deixa o texto em si, para trás. Como na execução de uma música em que cada acorde surge, para desaparecer logo em seguida e dele só fica a lembrança.

Lembrança que servirá para copiar uma idéia e reproduzi-la em outro instante, dando a ela minha autoria, como fiz no parágrafo acima, como fazem com os clichês. Não, a vida não tem respostas, portanto não deve haver perguntas. A única certeza é que morreremos sem termos encontrado um motivo para termos vivido. Como não há motivo algum para eu ter escrito isso, foi apenas uma contingência, um momento determinístico com sabor de aleatório.

Não há tristeza nas minhas palavras, não há sentimentos. Pessimismo, talvez, mas tudo depende do ponto de vista, pois também pode ser considerado liberdade. Mesmo o céu branco, não parece mais ser branco nem parece ser mais céu. É apenas mais uma extensão da massa e apenas assim posso enxergá-lo como é, pois embora meus olhos me apresentem uma abóbada branca, eu sei que existe e não é apenas uma ilusão.

Publicado por Milton à 15:00 | Não clique aqui ()


Epígrafe


Blogsfera


Dies Iræ

Diário de Blindness

Dorothy over the rainbow

Fragmentos

Poeira Eletrônica
Eis um tributo às toneladas de arquivos q são excluídos a todo milésimo de segundo nessa incomensurável rede. Para onde irão todos eles? ... Aqui não se deleta nada, ao contrário, faz-se back up.

divagações viciosas

.n.i.g.h.t.s.w.i.m.m.i.n.g.
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos

Substantivolátil
O primeiro rascunho de qualquer texto é uma m#$%@.

Tarrasque arqueiro

Vezes Quatro
Porque tudo é feito com empolgação...

It can't rain all the time

Bibliografia




Parede da memória